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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Defesas Celulares e a vitamina do Sol, a Vitamina D

Defesas Celulares e a vitamina do Sol Cientistas reconhecem que a vitamina D faz mais que contribuir para o fortalecimento dos ossos. Mas a maioria das pessoas não a obtem quantidades satisfatórias. Essa deficiência estaria contribuindo para o avanço de doenças mais graves? por Luz E. Tavera-Mendoza e John H. White 
 

A cura pela vitamina do Sol, 
a Vitamina D


http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/defesas_celulares_e_a_vitamina_do_sol.html



Reportagem


edição 67 - Dezembro 2007

 
Defesas Celulares e a vitamina do Sol


Cientistas reconhecem que a vitamina D faz mais que contribuir para o fortalecimento dos ossos. Mas a maioria das pessoas não a obtém em quantidades satisfatórias. Essa deficiência estaria contribuindo para o avanço de doenças mais graves?


por Luz E. Tavera-Mendoza e John H. White

 
JAMES PORTO
 
A cura pelo Sol, como era chamada no começo do século 20, era o único tratamento eficaz conhecido contra a tuberculose antes do advento dos antibióticos. Embora não se soubesse ao certo o porquê, geralmente os pacientes tuberculosos enviados para tratamentos em localidades ensolaradas conseguiam recuperar a saúde. A helioterapia foi descoberta em 1822, por causa de outra epidemia histórica, a do raquitismo – doença infantil deformadora, caracterizada pela falta de resistência óssea. O auge do raquitismo ocorreu nos séculos 18 e 19, na Europa, coincidindo com a industrialização e o aumento da migração do campo para cidades com ar poluído. Nessa época, um médico da Varsóvia observou que eram raros os casos dessa doença no interior da Polônia. Ele começou a conduzir experiências com crianças urbanas e constatou ser possível curar o raquitismo com simples banhos de sol.


Em 1827, um cientista francês descobriu que também o óleo de fígado de bacalhau possuía excelentes propriedades para combater o raquitismo, mas o tratamento não se popularizou; em parte, porque a noção de micronutrientes invisíveis e vitais para a saúde, contidos nos alimentos, ainda não era bem compreendida. E quase um século se passaria antes que os cientistas estabelecessem a ligação entre a cura do raquitismo pela alimentação e os efeitos benéficos do sol. No início do século 20, depois de incluir pele irradiada na alimentação de ratos com raquitismo induzido artificialmente, pesquisadores constataram que ela apresentava as mesmas propriedades curativas que o óleo de fígado de bacalhau. O elemento crítico comum à pele e ao óleo de bacalhau foi finalmente identificado em 1922. Na verdade, ele imitava a vitamina D. Àquela altura, o conceito das “aminas vitais” (ou “vitalamines”, em inglês) já tinha se tornado popular e as pesquisas posteriores sobre as funções da vitamina D no organismo foram responsáveis por definir sua imagem como um dos micronutrientes indispensáveis que as pessoas podem obter a partir dos alimentos.



A associação com o raquitismo também guiou boa parte das pesquisas em vitamina D, nos 50 anos seguintes, na busca para entender o papel das moléculas na formação óssea e sua atividade nos rins, no intestino e na estrutura óssea, ajudando a controlar o fluxo de entrada e saída de cálcio dos ossos na corrente sangüínea. Nos últimos 25 anos, no entanto, os estudos sobre as funções da vitamina D se expandiram, revelando que a chamada vitamina solar faz muito mais que construir ossos. Farta evidência agora comprova que a vitamina D tem potente ação anticancerígena e também atua como importante regulador das respostas do sistema imunológico. No entanto, muitos de seus benefícios recém-descobertos são maximizados apenas quando ela está presente na corrente sangüínea em níveis consideravelmente superiores aos encontrados nas populações modernas. Essas descobertas, somadas aos dados epidemiológicos que associam a carência de vitamina D a essas enfermidades, reforçam a possibilidade de essa deficiência realmente contribuir para um grande número de doenças.


Um Interruptor Versátil



Para entender as recentes descobertas sobre a vitamina D vale primeiro relembrar o que ela é de fato e como é aproveitada pelo corpo humano. A molécula conhecida como vitamina D pode ser obtida de uma fonte limitada de alimentos, como peixes gordurosos e óleo de peixe, e, mais recentemente, de suplementos alimentares. Mas somos também capazes de sintetizá-la a partir de uma reação química, que ocorre na pele quando exposta à radiação ultravioleta B (UVB). Portanto, a rigor, a vitamina D não deve ser considerada uma vitamina, pois a exposição moderada à UVB dispensa a necessidade de a incluirmos em nossa dieta. Entretanto, como nas regiões de clima temperado os raios UVB são insuficientes para induzir sua síntese pela pele, ao menos durante seis meses por ano, a ingestão diária é indispensável (ver quadro na pág. oposta).



Em geral, o termo “vitamina D” se refere coletivamente a duas moléculas muito parecidas, provenientes de cada uma dessas fontes. A vitamina D3, também conhecida como colecalciferol, é produzida por células da pele chamadas queratinócitos, a partir de um produto residual do colesterol, o 7-dehidrocolesterol, em resposta aos raios UVB. A vitamina D2 ou ergocalciferol é derivada de um esteróide vegetal similar e a molécula resultante apresenta pequenas diferenças estruturais em relação à D3. No entanto, nenhuma dessas duas versões tem qualquer atividade biológica no organismo. Primeiramente, cada molécula deve ser modificada por uma série de enzimas relacionadas em um processo chamado hidroxilação, que acrescenta dois terços de água à molécula a fim de gerar 25-hidroxivitamina D (ou 25D).



Essa conversão ocorre basicamente no fígado, mas vários tipos de células epiteliais também estão aptos a produzir a transformação localmente. A 25D produzida pelo fígado é, sem dúvida, a principal forma de vitamina D em circulação na corrente sangüínea. Sempre que o organismo necessita, a conversão final para a forma biologicamente ativa é requisitada – a 25D é novamente hidroxilada e se transforma em 1,25-disihidroxivitamina D -hidroxilase, foia(ou 1,25D). A enzima encarregada dessa função, a 1 identificada primeiramente nos rins, e a síntese renal é responsável por gerar boa parte do estoque de 1,25D circulante do organismo.



No entanto, os cientistas hoje também constataram que vários outros tecidos, incluindo as células do sistema imunológico e a pele, são capazes de produzir a enzima e realizar a conversão da 25D, por si só. Portanto, a pele é o único órgão capaz de produzir biologicamente a 1,25D ativa em presença dos raios UVB, do princípio ao fim. Embora a produção local de 1,25D a partir da 25D circulante em outros tecidos seja uma fonte substancial da atividade biológica da vitamina D no organismo e desvalorizada até pouco tempo. Ainda assim, uma vez considerada a atividade da vitamina D, fica fácil compreender porque a capacidade de metabolizar a sua forma ativa para uso local pode ser importante para certos tipos de células.



A molécula 1,25D funciona como um interruptor, capaz de acionar ou desligar os genes em quase todos os tecidos do corpo humano. Essa forma da vitamina D atua ligando-se a uma proteína conhecida como receptor de vitamina D (VDR, em inglês), que serve como fator de transcrição dentro do núcleo de uma célula. Uma vez capturada pela 1,25D, a proteína VDR busca uma proteína companheira, o receptor do retinóide-x (RXR), e o complexo que formam se conecta a uma região específica do DNA adjacente da célula em um gene alvo. Sua ligação com o DNA induz o mecanismo celular a iniciar a transcrição do gene mais próximo em uma forma que a célula traduzirá em proteína.



Ao fazer com que a célula produza uma determinada proteína, a 1,25D altera a função celular, e essa capacidade de acionar a atividade dos genes em diferentes células é a base dos efeitos fisiológicos disseminados da vitamina D. Como ela é uma substância produzida em um tecido, mas que circula através do organismo influenciando muitos outros tecidos, tecnicamente também é um hormônio. Na verdade, a VDR pertence a uma família de proteínas conhecida como receptores nucleares, que respondem a hormônios esteróides potentes, como o estrogênio e a testosterona.



Acredita-se que pelo menos mil genes diferentes sejam regulados pelo 1,25D, incluindo diversos envolvidos no processamento de cálcio pelo organismo, responsável pela fama do papel da vitamina D na formação óssea. Nas últimas duas décadas, no entanto, cientistas identificaram muitos outros genes influenciados pela atividade da vitamina D no organismo, incluindo genes com papéis decisivos em diversas defesas celulares.



Vitamina D Dá uma Força



Desde a década de 80, várias linhas de pesquisa apontam para o efeito protetor da vitamina D contra o câncer. Muitos estudos epidemiológicos sugerem uma íntima relação inversa entre a exposição à luz solar e a incidência de certos tipos de câncer. Estudos em animais e culturas celulares reafirmam essa associação, e ajudam a desvendar os mecanismos que podem estar envolvidos. 
 

Em camundongos modificados que desenvolveram câncer de cabeça e de pescoço, por exemplo, um composto chamado EB1089, sintético análogo à 1,25D, reduziu o crescimento tumoral em 80%. Resultados semelhantes foram encontrados em animais modificados com câncer de mama e de próstata. A identificação de genes ativados por essas versões sintéticas da vitamina D tem ajudado a explicar essas reações. O crescimento desordenado, ou proliferação, é marca registrada das células tumorais e o EB1089 tem tido êxito ao suprimir a capacidade de multiplicação das células alterando a atividade de um número de genes diferentes. Um gene fortalecido pelo composto – o GADD45 – é um conhecido inibidor do crescimento em células normais com DNA danificado, reduzindo assim o risco de se tornarem cancerosas.



Uma outra dezena de genes envolvidos no gerenciamento de energia da célula e na autodesintoxicação celular também foram associados à ação anti-tumorigênica do EB1089. Esse composto experimental, quimicamente projetado para ter atividades idênticas à da 1,25D sem provocar o acúmulo de níveis tóxicos de cálcio na corrente sangüínea e tecidos do organismo, é uma das muitas terapias em potencial para tratar o câncer, desenvolvidas pelas companhias farmacêuticas para tirar proveito das potentes propriedades antitumorigênicas da vitamina D.



De fato, nosso grupo do laboratório da McGill University também pesquisou as ações da vitamina D relativas ao câncer, em 2004, quando inadvertidamente deparamos com uma forma totalmente distinta de defesa fisiológica controlada pela 1,25D. Muitos dos genes regulados pela vitamina D foram descobertos ao longo dos últimos anos por cientistas que faziam uma varredura de partes do genoma humano, buscando os elementos de reação da vitamina D (VDREs, em inglês) – as seqüências distintivas do código de DNA adjacente aos genes, aos quais o complexo protéico VDR-RXR se liga. Em colaboração com Sylvie Mader, da University of Montreal, usamos um algoritmo criado em computador para fazer uma varredura do genoma completo, pesquisando VDREs e mapeando suas posições em relação aos genes próximos.



Embora esses estudos de mapeamento tenham contribuído consideravelmente para a compreensão das ações anticancerígenas da vitamina D, eles também revelaram VDREs posicionados nas proximidades de dois genes que codificam peptídeos antimicrobianos, chamados catelicidina e beta-defensina 2. Essas pequenas proteínas agem como antibióticos naturais contra um amplo espectro de vírus, bactérias e fungos. Conduzimos estudos nessa direção em culturas de células humanas e descobrimos que a exposição à 1,25D provocou um aumento relativamente modesto na produção do peptídeo beta-defensina 2 das células. No entanto, em numerosos tipos de células – incluindo aquelas do sistema imunológico e queratinócitos –, o aumento na produção de catelicidina foi dramático. Em seguida, demonstramos que células imunológicas tratadas com 1,25D, quando expostas a bactérias patogênicas – presumivelmente a catelicidina – liberaram fatores que dizimaram as bactérias.


 
Philip Liu e Robert Modlin, da University of California, em Los Angeles, e seus colaboradores avançaram significativamente nessa linha de pesquisa no ano passado, demonstrando que as células imunológicas humanas reagem às paredes das células das bactérias produzindo tanto a proteína VDR quanto a enzima que converte o 25D circulante na 1,25D biologicamente ativa. Nos experimentos do grupo, esses eventos induziram as células imunológicas a começar a produzir a catelicidina, passando a exercer atividade antimicrobiótica contra uma variedade de bactérias, incluindo a que talvez seja a mais intrigante: a Mycobacterium tuberculosis. Assim, pela primeira vez, a equipe revelou um embasamento plausível para a eficácia misteriosa da cura da tuberculose pelo Sol: os convalescentes que tomaram banhos de sol, obtendo dose extra de vitamina D, devem ter abastecido suas células imunológicas com o material bruto necessário para gerar um antibiótico natural que combate a bactéria da tuberculose.


Conforme as dúvidas sobre a fisiologia da vitamina D foram sendo esclarecidas, os pesquisadores perceberam que um número de ações protetoras da vitamina D no organismo pode ter envolvido algumas das funções originárias da fonte da molécula na pele. A ação inibidora de crescimento da 1,25D sobre as células cancerígenas faz sentido nessa linha, pois é sabido que a exposição excessiva à UVB é maléfica ao DNA das células epiteliais, podendo levá-las a desenvolver o câncer. Alguns ainda especulam que a reação antimicrobiana regulada pela vitamina D é uma adaptação que deve ter se desenvolvido para compensar o papel dessa vitamina como supressora de outras reações do sistema imunológico – mais especificamente, aquelas que levam à inflamação excessiva. Muitos de nós sabemos também, por experiência própria, que uma exposição exagerada à UVB causa queimaduras na pele, que em nível tissular resulta em acúmulo de fluido e inflamação. Embora uma quantidade limitada de inflamação seja um mecanismo benéfico para a cicatrização, e ajude o sistema imunológico a combater infecções, o excesso pode provocar um verdadeiro tumulto.



Então, talvez não seja surpreendente que vários estudos apontem que a 1,25D também age como agente antiinflamatório ao influenciar as interações das células imunológicas. Por exemplo, diferentes subtipos de células imunológicas se comunicam por fatores de secreção chamados citocinas para dar início a um tipo específico de resposta imunológica. Já ficou comprovado que a vitamina D suprimiu exageradamente as respostas inflamatórias, inibindo interferências da citocina.



Evidências diretas do papel natural da vitamina D na prevenção da inflamação foram encontradas pela primeira vez em experiências com animais, no início da década de 90, e mostraram que os camundongos tratados com a 1,25D ficavam protegidos contra a inflamação geralmente associada a feridas e ao irritante químico dinitrobenzeno. Por outro lado, camundongos com deficiência em vitamina D apresentaram hipersensibilidade aos mesmos agressores. Essa função imunossupressora da vitamina D imediatamente sugeriu uma série de novas possibilidades terapêuticas por meio de sua utilização, ou dos seus análogos, para controlar doenças imunodeficientes supostamente causadas por respostas superativas das citocinas, como a diabetes auto-imune, esclerose múltipla e síndrome do cólon irritável.



Deficiência Epidêmica?

 
O reconhecimento de que a 1,25D possui ampla gama de atividades biológicas muito além do seu papel na homeostase do cálcio trouxe um profundo alívio a uma grande quantidade de evidências epidemiológicas de que a carência em vitamina D esteja relacionada a certos tipos de doenças, entre elas o câncer, doenças auto-imunes e até mesmo infecciosas, como a gripe. Essa falta de vitamina D também deve estar relacionada às variações sazonais nas taxas de enfermidades. Além disso, muitas das reações fisiológicas à vitamina D reconhecidas, confirmadas tanto em laboratório quanto em testes clínicos, foram otimizadas apenas quando concentrações de 25D circulante são mais elevadas que a média em muitas populações. Membros da comunidade de pesquisadores em vitamina D chegaram, portanto, a inegável consenso de que um número expressivo de pessoas, em regiões de clima temperado, apresentam níveis de vitamina D bem inferiores às concentrações recomendadas como saudáveis, principalmente durante os meses de inverno.


Os raios UVB têm penetração atmosférica mais direta nos trópicos que nas regiões temperadas do planeta, que só podem contar com uma quantidade substancial deles nos meses de verão. E como para a maioria das pessoas a principal fonte de vitamina D é a exposição aos UVB, os níveis de 25D circulante nas populações de regiões temperadas diminui à medida que a latitude aumenta, embora variações numa dada latitude possam ser acentuadas por causa das diferenças de etnias e da alimentação, bem como variações no clima local e na altitude. Considerando as atividades reguladoras de genes observadas na vitamina D, há clara associação entre o aumento de latitude e a elevação do risco de diversas doenças, mais freqüentemente enfermidades auto-imunes, como a esclerose múltipla.



A esclerose múltipla é uma doença crônica progressiva, provocada pelo ataque das células imunológicas à bainha de mielina protetora que envolve as fibras nervosas do sistema nervoso central. Sua incidência é significantemente mais elevada em áreas mais afastadas do equador, na América do Norte, Europa e Austrália; e muitas evidências convincentes sugerem que esse padrão resulta da menor exposição aos raios UVB. A progressão da doença e o agravamento dos sintomas também apresentam clara variação sazonal, com o período de maior atividade da doença na primavera (quando os níveis de 25D circulante pós-inverno decaem) e a menor atividade da doença no outono, após a dose extra de D3 do verão. Cientistas da University of Southern California descobriram, por exemplo, uma relação inversa em 79 pares de gêmeos idênticos entre o aumento da exposição solar na infância e o risco futuro de desenvolvimento da esclerose múltipla. Os gêmeos que passaram mais tempo ao ar livre na infância apresentaram uma propensão 57% menor à doença.



Padrões semelhantes de risco de desenvolvimento de enfermidades foram registrados para a diabetes auto-imune e para a doença de Crohn, uma afecção intestinal inflamatória auto-imune, bem como para certos tipos de malignidade. As taxas de câncer de bexiga, mama, cólon, ovário e reto entre as populações dobram do sul para o norte dos Estados Unidos, por exemplo.


Além dos diversos estudos que relacionam a exposição solar à incidência de doenças, pesquisas recentes estabeleceram conexões parecidas entre o risco de enfermidades e contagens diretas das concentrações de 25D circulantes no soro sangüíneo. Um levantamento abrangente realizado por pesquisadores da Harvard School of Public Health examinou amostras de soro de cerca de 7 milhões de oficiais do exército e da marinha americanas, assim como seus registros médicos, para verificar quais desenvolveram a esclerose múltipla, entre 1992 e 2004. Os pesquisadores encontraram risco significantemente menor de desenvolvimento da doença no grupo com níveis mais elevados de 25D no soro no momento da coleta das amostras. Oficiais com concentrações de 25D acima de 40 ng/ml apresentaram propensão 62% menor que aqueles cuja concentração era igual ou inferior a 25 ng/ml.


As concentrações de vitamina D no soro sangüíneo com valores entre 21 ng/ml e 29 ng/ml são consideradas insuficientes e, freqüentemente, acompanhadas de uma redução na densidade óssea. Alguns dos sintomas do raquitismo podem se manifestar em concentrações inferiores a 20 ng/ml, e o risco de câncer de cólon aumenta.


 
Essas baixas concentrações infelizmente são muito comuns, especialmente nos meses de inverno. Em fevereiro e março de 2005, por exemplo, durante o pico do inverno no hemisfério norte, uma pesquisa que examinou 420 mulheres saudáveis do norte da Europa – na Dinamarca (Copenhague: latitude 55°), Finlândia (Helsinque: 60°), Irlanda (Cork: 52°) e Polônia (Varsóvia: 52°) – descobriu que 92% das adolescentes nesses países tinham concentrações de 25D inferiores a 20 ng/ml, e que 37% das meninas apresentavam deficiência extrema, com níveis inferiores a 10 ng/ml. Entres as mulheres mais velhas examinadas, 37% apresentaram carência de vitamina D e 17%, carência total.

Além da latitude, diversos outros fatores contribuem para a deficiência de vitamina D, sendo que a primeira é a etnia. A pele clara sintetiza a vitamina D seis vezes mais rápido que a pele morena, já que a concentração maior de melanina na pele escura bloqueia a penetração dos raios ultravioleta. Como resultado, os níveis de 25D nos negros dos Estados Unidos não chegam à metade daqueles observados nos brancos. Na verdade, dados recolhidos em um levantamento oficial sobre saúde e alimentação nesse país revelaram que 42% das mulheres negras apresentaram deficiência de 25D, com concentrações no soro sangüíneo de menos de 15 ng/ml.
 


Maior conscientização sobre os danos provocados pela exposição solar da pele sem dúvida também contribuiu para a carência de vitamina D. Quando aplicados adequadamente, os protetores solares de uso tópico também reduzem a vitamina D produzida pela pele em mais de 98%. A concentração saudável de vitamina D pode ser sintetizada pela pele com uma exposição solar que produza ao menos um leve rosado sobre ela. Para pessoas com pele clara e de tom médio na América do Norte, isso corresponde a 15 minutos de banho de sol entre as 10 h e as 15 h durante o verão.


Os suplementos de vitamina D podem combater a alta deficiência de vitamina D nas zonas temperadas, mas quem deve consumi-los permanece objeto de discussão. A Academia Americana de Pediatria recomenda a ingestão de uma dose diária mínima de 200 unidades internacionais (UI) para crianças, que muitos pesquisadores consideram abaixo do ideal, até mesmo para a prevenção do raquitismo. A quantidade diária recomendada atualmente para adultos em países da América do Norte e Europa varia entre 200 UI e 600 UI, dependendo da idade. Depois de analisar diversos estudos comparando a ingestão de vitamina D e as concentrações de 25D no soro sangüíneo, pesquisadores da Harvard School of Public Health e outros concluíram, no último ano, que as doses recomendadas atualmente são inadequadas. Eles sugerem que pelo menos a metade dos americanos adultos precisariam consumir um mínimo de 1.000 UI de vitamina D3 diariamente, para elevar sua concentração de 25D para o nível mínimo saudável de 30 ng/ml.



Não existe uma regra geral para calcular os níveis de 25D no soro sangüíneo gerados pelos suplementos, pois a resposta individual pode variar dependendo, em parte, do grau de deficiência. Um estudo entre gestantes revelou, por exemplo, que doses diárias de 6.400 UI elevaram drasticamente a concentração de 25D, até atingir cerca de 40 ng/ml e, a seguir, nivelar-se. A vitamina D2 também provou ser menos eficiente que a D3 para elevar e manter concentrações de 25D no soro sangüíneo ao longo do tempo.


 
Uma overdose tóxica de vitamina D com a suplementação é uma possibilidade real, embora em geral isso represente a ingestão diária de uma dose igual ou superior a 40.000 UI da vitamina, por período prolongado. No entanto, não há registros sobre a toxicidade da vitamina D induzida pelo Sol. Para se ter uma idéia, uma mulher adulta de pele clara, tomando banho de Sol de biquíni no verão, gera cerca de 10.000 UI de vitamina D em 15 a 20 minutos. Exposições prolongadas não produzem quantidades maiores de vitamina D, pois os raios UVB também degradam a vitamina, impedindo que boa parte dela se acumule na epiderme.

 
Cada vez mais evidências sugerem que efeitos sutis a longo prazo da deficiência de vitamina D, mesmo que leve, podem se multiplicar e se manifestar com a idade, na forma de fraturas repetidas e no aumento da predisposição a doenças auto-imunes, além da maior freqüência de certos tipos de câncer. A análise das pesquisas leva fortemente a crer que o público em geral se beneficiaria substancialmente com a divulgação e conscientização sobre os amplos benefícios fisiológicos da vitamina D, com um consenso bem baseado da classe médica sobre a exposição solar bem dosada, e uma clara indicação da ingestão diária ideal de vitamina D por meio da alimentação.


CONCEITOS-CHAVE



- A vitamina D, há muito associada apenas com seu papel na formação óssea, na verdade age sobre todo o organismo, influenciando poderosamente as respostas do sistema imunológico e as defesas celulares.


- Essa vitamina pode ser obtida a partir de alimentos ou ser produzida pela pele humana quando exposta à luz solar. Medições das concentrações de vitamina D mostram, no entanto, que muitas pessoas apresentam quantidades insuficientes no sangue para proteger sua saúde.


- Associações visíveis entre níveis baixos de vitamina D e cânceres, auto-imunidade, doenças infecciosas e outras enfermidades indicam que as recomendações atuais sobre a dose diária para esse nutriente essencial precisam ser revistas. 
 
 
– Os editores



[CONHECIMENTO BÁSICO] 
A PRODUÇÃO DE UMA VITAMINA ATIVA





ANDREW SWIFT


O termo “vitamina D” em geral se refere a duas moléculas diferentes – a D3, sintetizada pela pele, e a D2, de origem vegetal, obtida pela alimentação. As duas versões da vitamina D devem passar por estágios de conversão para atingir sua forma biologicamente ativa, conhecida como 1,25D.

1- A vitamina D3 é produzida por células da pele chamadas queratinócitos quando os raios ultravioleta B e o calor agem sobre um produto residual do colesterol, o 7-dehidrocolesterol (esquerda). A vitamina D2, encontrada em certos alimentos, é derivada de uma molécula de esterol vegetal similar (direita). Produzidas pela pele ou ingeridas, tanto a D3 quanto a D2 entram no sistema circulatório.


2- Quando a D3 ou D2 circulante atinge o fígado, é convertida quimicamente por enzimas em 25-hiroxivitamina D (25D). Então, a forma 25D da vitamina volta a entrar na circulação.


3- Boa parte da 25D circulante no organismo passa por uma transformação final nos rins, onde as enzimas convertem a 25D em 1,25D, que é liberada na circulação e percorre diferentes órgãos e tipos de célula afetados fisiologicamente pela vitamina D.


ATIVAÇÃO LOCAL

A pele é o único tecido do corpo humano capaz de sintetizar a D3, bem como todas as enzimas necessárias para convertê-la em 25D e depois em 1,25D. As células imunológicas e muitos outros tecidos podem produzir a enzima necessária para converter 25D em 1,25D localmente.



FONTES DE VITAMINA D
 

As vitaminas D3 e D2 estão presentes naturalmente em alguns alimentos. Além disso, ambas as versões da vitaminsão adicionadas a certos produtos “fortificados”. Alimentos fornecem doses relativamente pequenas de vitamina D comparadas com as quantidades produzidas pela pele em resposta aos raios UVB. (UI = unidades internacionais)

Óleo de fígado de bacalhau (1 colher de sopa): 1,360 UI D3


Atum, sardinha,cavala ou salmão cozidos (85 g a 100 g): 200–360 IU D3


Cogumelo shitake 100 UI D2(seco, 100 g.): 1600 UI D2 (fresco, 100 g):


Gema de ovo: 20 UI D3 ou D2


Produtos laticínios fortificados, suco de laranja ou cereais 100–400 UI D3 ou D2 (uma porção):


Exposição de corpo inteiro aos raios UVB (15 a 20 minutos no meio do dia no verão, pele clara): 100,000 UI D3




[VITAMINA D EM AÇÃO]
UM INTERRUPTOR DE AMPLA AÇÃO


Núcleo da célula
 
 
A forma biologicamente ativa de vitamina D, a 1,25D, “aciona” certos genes, desencadeando a produção de proteínas codificadas por eles. Essas proteínas podem causar efeitos fisiológicos locais ou disseminados. Estima-se que mais de mil genes diferentes, em pelo menos uma dezena de tipos de células e tecidos por todo o corpo, sejam regulados pelo 1,25D

1- No interior do núcleo da célula, a molécula de 1,25D se liga a uma proteína chamada receptor de vitamina D (VDR)


2- A VDR forma um complexo com uma proteína semelhante, o receptor do retinóide-x (RXR), e juntas elas se ligam a uma região na fita de DNA denominada elemento de reação da vitamina D


3 - Ligado ao elemento de resposta, o VDR-RXR recruta as proteínas do fator de transcrição para o complexo, levando à transcrição do gene mais próximo


4- A transcrição do gene deixa o núcleo para ser traduzida pelo mecanismo celular no citoplasma para uma proteína acabada



TECIDOS AFETADOS PELA VITAMINA D




O receptor ou proteína VDR (acima) é encontrado em muitos tecidos do organismo, assim como em células imunológicas circulantes, indicando que a vitamina D ativa tem a função de regular a atividade dos genes nesses locais. A lista abaixo inclui alguns dos tecidos e células em que a ação da 1,25D foi estabelecida.


Ossos

Cérebro
Mamas
Gordura
Intestino
Células imunológicas
Rins
Fígado
Nervos
Pâncreas
Glândula paratireóide
Próstata
Queratinócitos da pele


25D NA DOSE CERTA



LUCY READING-IKKANDA


Estimativas da quantidade de vitamina D disponível no organismo se baseiam na contagem da concentração de 25D no soro sangüíneo. Níveis entre 30 e 45 nanogramas por millilitro de soro são considerados como o mínimo suficiente para a saúde dos ossos, embora algumas da respostas celulares benéficas à vitamina D sejam melhores em concentrações mais elevadas. Quando abaixo de 30 ng/ml, os riscos de saúde aumentam; acima de 150 ng/ml, há acúmulo excessivo de cálcio no sangue e nos tecidos, e é possível apresentar sintomas de toxicidade.

Acima de 150 ng

Sintomas de toxicidade e hipercalcemia

30–60 ng Variação ideal


20–29 ng Insuficiente

Absorção de cálcio comprometida

0–19 ng Deficiente

Possíveis sintomas de raquitismo
Elevação do risco de câncer
Resposta antimicróbica do peptídeo pode ser inibida


A VITAMINA QUE FAZ A DIFERENÇA

 

Philip Liu, Maria Teresa Ochoa e Robert Modlin DIVISÃO DE DERMATOLOGIA, DEPARTAMENTO DE MEDICINA, UCLA


CÉLULAS IMUNES tratadas com 1,25D respondem à infecção causada pela bactéria da tuberculose (verde e amarelo) produzindo peptídeos de catelicidina antimicrobianos (vermelho).


Cada vez mais evidências indicam que índices cronicamente baixos de vitamina D aumentam a propensão para certas doenças. Exemplos de estudos com base nos níveis de vitamina D no soro sangüíneo da população ou na exposição ao raios ultravioleta incluem:

- Risco de 30% a 50% maior de desenvolver câncer de mama, próstata e cólon em concentrações de 25D inferiores a 20 ng/ml.


- Risco cinco vezes maior de desenvolver câncer de ovário entre mulheres que vivem em latitudes mais elevadas (por exemplo, Noruega e Islândia), que aquelas que moram em regiões equatoriais.


- 77% de redução na propensão de todos os tipos de câncer entre as mulheres do estado americano do Nebraska com mais de 55 anos, que tomaram 1.100 UI de D3 diariamente por um período de três anos, comparadas a um grupo de controle.


- Risco 62% menor de desenvolver esclerose múltipla, com concentrações sorológicas cima de 40 ng/ml, em comparação a níveis iguais ou inferiores a 25 ng/ml.


- Propensão 80% menor para a diabetes auto-imune (tipo 1) em crianças finlandesas que receberam 2.000 UI de D3 diariamente, durante o primeiro ano de vida.




[PROBLEMA GLOBAL] O INVERNO DA VITAMINA D



LUCY READING-IKKANDA
 

A exposição à radiação UVB dos raios de sol é a maior fonte de vitamina D para a maioria as pessoas. Assim, a localização e a estação climática influem no risco de deficiência. Durante um período do ano, conhecido como “inverno da vitamina D”, a intensidade dos raios UVB enfraquece em algumas latitudes, a ponto de afetar a indução da síntese da vitamina pela pele. Como o ozônio bloqueia os raios UVB, eles são mais intensos próximo ao equador, onde o raio de sol percorre uma distância menor através da atmosfera terrestre, e a síntese de vitamina D é possível o ano todo. Um aumento no ângulo de penetração em altitudes mais altas enfraquece a intensidade do UVB até que ele se torne insuficiente para a produção da vitamina, especialmente durante o inverno.


Luz E. Tavera-Mendoza e John H. White trabalham juntos no laboratório de White na McGill University, nos Estados Unidos, pesquisando as atividades moleculares da vitamina D nas células humanas. Eles desvendaram aspectos de seu papel na prevenção do câncer e, junto com seus colaboradores, descobriram que a vitamina D regula certos genes envolvidos nas respostas da célula a micróbios invasores. Tavera-Mendoza atualmente é pós-doutoranda da Harvard Medical School, e pesquisa a vitamina D e câncer de mama. Após testemunharem a ação protetora da saúde da vitamina D em laboratório, os dois autores passaram a tomar suplementos durante períodos do ano, quando os raios solares são muito fracos nas cidades ao norte, onde moram, a fim de produzir a quantidade adequada na pele. White toma 4.000 UI de D3 diariamente durante os meses “invernais de vitamina D”, e Tavera-Mendoza toma 1.000 UI.
 
 
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domingo, 31 de julho de 2011

5 FORMAS DE PROTEGER SEU CÉREBRO


5 FORMAS DE PROTEGER SEU CÉREBRO

Dr. Cicero Galli Coimbra, M.D., Ph.D.
Laboratory for Brain Ischemia Research, Head Department of Neurology and Neurosurgery Federal University of São Paulo.
Escola Paulista de Medcina

Revista Viva Saúde

http://revistavivasaude.uol.com.br/edicoes/23/artigo15542-1.asp


Manter a saúde mental é mais fácil do que muita gente imagina. As pesquisas dos últimos 10 anos apontam ser possível, sim, estimular a formação de novos neurônios (o que até 1998 a ciência considerava impossível!) e, conseqüentemente, afastar os riscos de doenças como Parkinson e mal de Alzheimer. Saiba como:


O que fazer para manter o corpinho em forma e poupar as articulações, as artérias, o fígado, os pulmões, o coração e tantos outros órgãos e sistemas vitais todo mundo está cansado de saber: atividade física regular, alimentação leve e balanceada, abandono de vícios e exames preventivos anuais. Agora, o desafio da ciência é desvendar os mistérios que ainda envolvem a complexa estrutura cerebral para encontrar saídas que também ajudem a conter ao máximo a morte natural dos neurônios e a preservar a saúde mental.
 


Essa preocupação faz sentido. Muitas pessoas passam a vida tentando conciliar uma rotina de trabalho estressante com aulas de ginástica, avaliações e consultas médicas, almoço e jantar saudáveis, algumas horas de lazer... E até conseguem, mas, quando finalmente conquistam o bem-estar físico, é a cabeça que começa a falhar, especialmente após os 60 anos.


Segundo relatório publicado pela revista científica inglesa The Lancet, um novo caso de demência surge a cada sete segundos no mundo (o que inclui entre outros distúrbios progressivos e degenerativos do cérebro o mal de Alzheimer) - são quase 5 milhões de novas vítimas ao ano. E estima-se que esses números possam quadruplicar[/b, chegando a um total de 81 milhões de pessoas nas próximas três décadas.


Para piorar, soma-se a essa triste estatística o fato de neurocientistas e pesquisadores sempre terem alertado para a fragilidade das células nervosas cerebrais. Até mesmo nós, simples mortais, aprendemos que os neurônios vão morrendo com o passar dos anos e, uma vez danificados, não podem se regenerar. Resultado: a nossa única esperança de manter a lucidez na terceira idade seria mesmo continuar cuidando da saúde geral e fortalecendo as conexões (a comunicação entre as células nervosas do cérebro) para tentar ao menos adiar as conseqüências das perdas neuronais - uma vez que é impossível evitá-las.


A boa nova é que em 1998 uma notícia abalou o mundo da neurociência e, apesar de ainda causar controvérsias, sugere um futuro menos sombrio para a humanidade. Naquele ano, uma pesquisa publicada na revista Nature Medicine comprovava uma desconfiança que surgiu na década de 60 com os estudos realizados com ratos pela equipe do neurocientista norte-americano Fred Gage - e para a qual pouca gente deu importância na época -, a de que novos neurônios são produzidos diariamente no cérebro humano.

O fenômeno, que ficou conhecido como neurogênese, logo atraiu o interesse da comunidade científica que passou a acompanhar de perto todos os detalhes das descobertas.


Espécies de células-tronco localizadas ao redor dos ventrículos (as cavidades internas do cérebro por onde deságua o líquido encefalorraquidiano que vem da medula espinhal) são capazes de dar origem aos neurônios e todas as células do Sistema Nervoso Central (SNC). Chamadas de precursoras, essas 'células-mãe' se multiplicam toda vez que há perda de neurônio. As células nervosas 'recém-nascidas', então, migram para suprir a região onde houve o dano e restabelecer o circuito nervoso por ali. Muitos desses 'bebês', porém, não conseguem chegar até o seu destino e morrem pelo caminho - é a apoptose, um acidente de percurso cujo risco de ocorrer aumenta 90% à medida que o indivíduo envelhece.


Segundo o neurologista Cícero Galli Coimbra, professor e pesquisador do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), depois desses achados, cientistas de todo o mundo passaram a se empenhar na identificação dos fatores que, ao longo dos anos, podem estimular ou impedir tanto a multiplicação e o nascimento das células nervosas do cérebro quanto a apoptose.


"Agora, este será o melhor caminho para descobrir tratamentos mais eficazes e até a prevenção de doenças relacionadas às falhas e perdas de neurônios, como os males de Parkinson e Alzheimer", acredita.


Para provar isso, o médico fez um levantamento de todos os estudos relacionados ao assunto e publicado em revistas científicas especializadas desde 98 e revelou para Viva Saúde pelo menos cinco atitudes que, comprovadamente, contribuem para equilibrar a perda e o nascimento de células nervosas e, conseqüentemente, preservar o nosso cérebro intacto por mais tempo.


Segundo o especialista, quem estiver falhando em algum dos fatores relacionados à neurogênese a seguir tem muito mais chance de desenvolver doenças neurodegenerativas no futuro, mesmo que não apresente nenhuma predisposição genética.


Confira:

1 FUJA DO ESTRESSE CRÔNICO


As pesquisas da década de 60 desenvolvidas pela equipe do neurocientista Fred Gage com ratos adultos já sugeriam uma possível influência do estilo de vida na saúde dos neurônios. Em animais criados em gaiolas cheias de brinquedos para explorar, observou-se um aumento de novas células nervosas no hipocampo (a área responsável pela capacidade de memorizar e aprender). Enquanto que naqueles ratinhos submetidos a estresse constante, uma condição desfavorável ao aprendizado, essa produção diminuiu significativamente.


"Hoje, já se sabe que as tensões diárias, a angústia e a preocupação antecipada - sensações comuns no dia-a-dia do homem moderno - são capazes de afetar também o cérebro do ser humano. Esse estresse crônico bloqueia a neurogênese no início, impedindo que as células precursoras se multipliquem", explica o neurologista Cícero Galli, da Unifesp.






Vários estudos já comprovaram que, nestas condições, o cérebro só perde neurônios e não os repõe. O próprio médico, que já avaliou mais de 600 portadores de mal de Parkinson desde 2002, foi um dos pesquisadores a demonstrar isso. Em junho do ano passado, durante um congresso sobre a doença na Alemanha, ele apresentou resultados que indicavam o estresse como um dos principais responsáveis pela destruição das células nervosas produtoras da dopamina, matéria química que, entre outras funções, tem papel fundamental na manutenção das atividades motoras. Essa deficiência dificulta os movimentos, provoca rigidez muscular e causa os tremores em quem desenvolve esse distúrbio neurológico crônico e progressivo.


"Não há dúvidas de que a tensão emocional está envolvida em 95% dos casos de mal de Parkinson, que são exatamente aqueles que não têm uma causa genética. Sempre descubro um trauma por trás do problema. Uma das minhas pacientes, por exemplo, começou a manifestar os sintomas da doença algumas horas depois de presenciar a morte do marido em um assalto no trânsito", conta o neurologista.


Além disso, aqueles que são tratados com a ajuda de psicoterapia têm apresentado excelentes resultados.


"Os que recebem instruções para relaxar e encarar a vida de forma mais simples e descontraída, em casos mais leves, podem deixar de apresentar os sintomas. Enquanto aqueles que se encontram em estágios finais da enfermidade, há ao menos uma melhora do quadro, com o desaparecimento de problemas urinários, bem como dos pesadelos e dificuldades de raciocínio - comuns nessa fase", explica.


2 INCLUA GEMA DE OVO NO CARDÁPIO


Depois da absolvição pela condenação injusta que o colocava como principal responsável por elevar as taxas de colesterol no sangue, o ovo ganha mais um motivo para ser consagrado como uma opção do bem e, agora, indispensável no prato. O fato é que a gema (e não a clara, é bom lembrar), mais do que qualquer outro alimento, oferece uma grande concentração de colina - uma substância que, agora se sabe, reveste a membrana das células (incluindo as células nervosas do cérebro) e que não é produzida pelo organismo.


"A presença dela é muito importante para a formação de novas células, incluindo as células nervosas cerebrais do adulto. Quanto mais colina no organismo, mais material para a formação da membrana celular", explica o neurologista da Unifesp.


Mas não é só. Ela, colina, também forma acetilcolina, um neurotransmissor relacionado às funções de aprendizado e memória, e teria um papel importante na gravidez e no desenvolvimento do cérebro do feto. Os pediatras ainda não recomendam uma suplementação da colina durante a gestação, mas a importância dessa substância para o bebê foi sugerida em 1997, a partir dos resultados de estudos realizados pelo pesquisador Steven Zeisel, da Universidade da Carolina do Norte, dos Estados Unidos, com ratas de laboratório prenhas.


"Aquelas que recebiam suplemento de colina durante a gestação estimulavam muito mais o crescimento das células nervosas nos ratinhos.

Quando estes nasciam, eram testados em um labirinto e demonstravam muito mais agilidade para aprender o caminho e encontrar a saída do que aqueles nascidos de ratas que não haviam sido submetidas à suplementação"
, conta Cícero Galli.

A importância dessa e de outras descobertas sobre as funções da colina tem sido tão grande que o governo norte-americano providenciou em 2004 a divulgação de um banco de dados (o USDA Database for the Choline Content of Common Foods) para verificar a presença da substância nos alimentos. Com a ajuda dele, é possível saber por exemplo que a colina também está presente em boas quantidades no fígado de boi e de frango, no gérmen de trigo e na soja. E que cinco gemas de ovo somam 682,4 mg de colina, enquanto só a clara equivale a 1,1 mg e 1 litro de leite a apenas 14 mg da substância.


"Vale lembrar que para oferecer todos os benefícios para o cérebro precisaríamos de pelo menos 500 mg de colina por dia, o que pode ser obtido com uma cardápio variado", alerta o neurologista.


3 TOME SOL NA MEDIDA CERTA


Quem, afinal, em uma metrópole como São Paulo, não costuma sair de carro para trabalhar, estacionar no prédio onde fica a empresa, permanecer o dia inteiro trancafiado em um escritório com janelas escuras e anti-ruídos e voltar para casa ao anoitecer sem ver a cara do astro-rei ou perceber se a temperatura lá fora mudou?


É isso mesmo... A vida moderna nos transformou em ratos de esgoto ou de laboratório (como preferir), pelo menos no que diz respeito ao contato saudável com o sol. A conclusão foi do bioquímico Reinhold Vieth, da Universidade de Toronto, no Canadá. Ele avaliou os níveis de vitamina D (que para ser assimilada pelo organismo precisa da ajuda dos raios solares) em animais e comparou aos níveis encontrados no homem moderno. Foi então que percebeu a queda dessa vitamina.


E em que isso prejudica o cérebro?


"Além de ser essencial para a formação óssea, ela estimula a produção de NGF (fator de crescimento dos neurônios)", esclarece Cícero Galli Coimbra.


Descrita em 1956, a NGF é uma proteína essencial para a sobrevivência e fortalecimento das células nervosas cerebrais, por ser capaz de enviar sinais contínuos para que um neurônio dirija suas terminações na direção de outro e forme uma sinapse (aproximação entre os neurônios, onde ocorrem várias reações químicas que ainda estão sendo estudadas). Quanto mais numerosas e fortes forem essas conexões (sinapses), menos ocorrências de apoptose e mais eficientes as capacidades cognitivas, como a memória.


4 TAURINA NA MEDIDA CERTA


Aminoácido de maior concentração nas células do corpo, a taurina tem a função de impedir a formação de coágulos no sangue, diminuir a quantidade de triglicérides (gordura) no sangue, fortalecer o endotélio (a camada de revestimento dos vasos sangüíneos e, agora se sabe, bloquear a apoptose (a morte dos novos neurônios).


O problema é que o organismo produz naturalmente esta substância, mas sua quantidade diminui bastante com o passar do tempo. Não é à toa que, segundo o neurologista Cícero Galli, alguns geriatras têm recomendado a seus pacientes com mais de 60 anos fórmulas para repor essa substância no organismo, embora isso ainda seja questionável. "Ainda não se sabe qual o mecanismo que envolve a taurina com a neurogênese, nem mesmo a quantidade necessária para cada pessoa", alerta.



5 EVITE O CONSUMO DE ÁLCOOL


Não é difícil imaginar por que bebidas alcoólicas e outras drogas podem afetar o cérebro. Essas drogas costumam afetar em cheio o Sistema Nervoso Central, provocando uma mudança no comportamento ao serem ingeridas. Quem bebe além da conta, por exemplo, pode ter tonturas, falta de coordenação motora, confusão mental, desorientação e até anestesia momentânea.

usuários de maconha apresentam alteração nos sentidos (visão, audição, olfato e tato), na cognição (pensamentos, memória e atenção) e até no humor.


"As células nervosas cerebrais, apesar de complexas, são extremamente frágeis e sensíveis. E, além de estimular a morte de neurônios, o uso dessas substâncias pode bloquear a formação de novos", afirma o neurologista da Unifesp, Cícero Galli.


Vale lembrar que mesmo aqueles que dizem beber socialmente podem estar arriscando a sua saúde mental no futuro. De acordo com o especialista, ainda não se sabe qual a quantidade de álcool, por exemplo, já é capaz de interromper a neurogênese, até porque a sensibilidade do organismo varia de pessoa para pessoa.


COMO A NEUROGÊNESE FOI DESCOBERTA


Na década de 60, Fred Gage e sua equipe de pesquisadores da Universidade da Califórnia (EUA), em experiências com canários machos adultos, notaram que toda vez que os pássaros cantavam havia proliferação de novos neurônios. Até então, a ciência acreditava que as células nervosas cerebrais não podiam nascer em cérebros adultos - no máximo, conseguiam amadurecer ou fortalecer suas conexões.


Para verificar a presença dos neurônios recém-nascidos, porém, não bastava um microscópio potente. Todos os neurônios são iguais e transparentes, e só com a ajuda desse equipamento não haveria como saber quais eram os novos habitantes do cérebro.


Nesse sentido, a tecnologia foi permitindo o uso de técnicas mais eficientes e que possibilitaram a realização de testes mais precisos a partir da década de 90 em ratos, sagüis e outros primatas adultos. A técnica utilizada para comprovar a neurogênese tinha como princípio deixar uma marca visível em todo o neurônio que nascia. Para isso, os cientistas lançaram mão de um marcador celular, a substância BrDu (bromodesoxiuridina), que tem a propriedade de ser captada pelas células que estão se reproduzindo no organismo. O BrDu fica colorido após reação química e pode ser destacado e visualizado por microscópio. Assim, ficaria comprovado o nascimento de neurônios. Mas como fazer essa experiência com humanos?

O BrDU é tóxico e seria necessário remover o cérebro para procurar com o microscópio os neurônios marcados. Ou seja, seria necessário conseguir doadores e aguardar sua morte. Mas em 1998 pesquisadores suecos tiveram uma grande chance. Como o BrDu estava sendo usado em pacientes terminais com câncer, para verificar a multiplicação de células cancerígenas e a existência de metástase, os cientistas explicaram a importância do experimento às famílias de cinco pacientes e obtiveram a permissão para remover o seus cérebros após a morte para analisar a região do hipocampo. Os resultados, finalmente, comprovaram a neurogênese e foram publicados na revista científica Nature.
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 Colina artigos


Prevention's MS - Increase supplements - Info
10/02/2006
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=7394899&tid=2447246423669484212&start=1
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5 Formas de Proteger seu Cérebro
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=7394899&tid=2456725596880382644
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A colina é complemento alimentar preventivo de uma série de doenças neurodegenerativas. Esta substância está na gema do ovo. A gema deve ser consumida. E, hoje, os médicos esclarecem que a gema não provoca colesterol. É a colina a substância que mantém os neurônios vivos. Neurônios novos, células-troco, nascem ao redor dos ventrículos dentro do cérebro, todos os dias, com a informação pronta para manter e restabelecer o sistema nervoso. No entanto, os neurônios novos não podem sobreviver se há falta de colina.

Leia

5 FORMAS DE PROTEGER SEU CÉREBRO

Viva Saúde
http://revistavivasaude.uol.com.br/edicoes/23/artigo15542-1.asp

e

USDA Database for the Choline Content of Common Foods

disponível em:
http://www.nal.usda.gov/fnic/foodcomp/Data/Choline/Choline.pdf

Prepared by
Juliette C. Howe, Juhi R. Williams, and Joanne M. Holden

Nutrient Data Laboratory
Agricultural Research Service
U.S. Department of Agriculture

in collaboration with
Steven H. Zeisel and Mei-Heng Mar
Department of Nutrition, University of North Carolina, Chapel Hill, NC 27599

March 2004


Fim de um mito



Fim de um mito


Avenida Paulista, esquina com a Rua Augusta. Não se engane com o endereço fácil. A corrida de táxi vai pegar o atalho de um cérebro privilegiado. São Paulo tem 128 mil ruas. Cada passageiro, um destino. Cada destino, um roteiro repleto de minúcias. Alguns segundos. É só o que o taxista João Pereira de Souza precisa para desvendar qualquer trajeto. Um detalhado mapa imaginário vai aparecendo na cabeça dele.

Dar sentido a uma cidade é o que urbanista Lucídio Guimarães Albuquerque faz. Ordenar o desenho urbano, pôr letras e números numa seqüência lógica. Ajudar a planejar Brasília faz parte do trabalho de Lucídio.
"Arquitetura, urbanismo e planejamento regional sempre foram meus grandes interesses profissionais, desde jovem, quando entrei para a antiga Universidade do Brasil, em 1943. Eu não sei o vem a ser sossegar. Se é parar, isso eu não faço", diz Lucídio.


Aos 85 anos, Lucídio estuda como nunca e trabalha como sempre. Arquiteto e consultor da Secretaria do Meio Ambiente do Distrito Federal, percorre os núcleos rurais que ajudou a criar e acompanha a produção agrícola. Conhece todo mundo pelo nome. 
 
"Eu tenho que me lembrar, de memória, de pessoas que moram aqui. Se falam comigo, eu tenho que lembrar e conversar com eles como naquele tempo em que tinham 20 anos, como o Hugo Bota e o Chico Carioca", conta Lucídio.

João, 65 anos. Lucídio, 85. O que será que evitou o envelhecimento do cérebro deles e os manteve ativos e saudáveis? "Eu como o trivial: feijão com arroz, carninha de sol. E digo mais: mocotó uma vez por semana. Já falei isso para meu doutor cardiologista. Eu gosto porque são os sabores da minha infância. Era o que mais se comia na minha casa", lembra Lucídio.

A ciência já estuda a relação entre os alimentos e o funcionamento do cérebro. Duas universidades gaúchas – a Federal do Rio Grande do Sul e a Unisinos – estão pesquisando juntas o quanto a nossa dieta pode ser capaz de fornecer nutrientes essenciais para melhorar a comunicação entre as células do cérebro. É o caso, por exemplo, do arroz com feijão. O prato típico do brasileiro ajuda a manter o cérebro funcionando bem. E ele precisa.

O cérebro tem menos de 5% da massa total do corpo, mas gasta 20% de todo o oxigênio que respiramos. Com tanto oxigênio concentrado num espaço tão pequeno, pode acontecer com o cérebro o que acontece com um pedaço de metal em contato com o ar: a oxidação. É como se ele enferrujasse.

Alguns alimentos combatem a oxidação. "Frutas e verduras são fundamentais – de cinco a sete porções diferentes por dia, de preferência, coloridas. Há um tempo, as cores dos alimentos estavam relacionadas com a beleza e a vontade de comer. Hoje se sabe que as cores têm pigmentos que são antioxidantes", explica a nutricionista Denize Righetto Ziegler, da Unisinos e da UFRGS.

Tão importante quanto à alimentação é a postura diante da vida. Antes de sair da Bahia, ninguém acreditava em João.
"Eu era considerado o garotinho mais burrinho da cidade, porque eu não estudei. Quando se falava qualquer coisa sobre estudo, eu não sabia nada. Então, fiquei conhecido como o mais burrinho da cidade", conta o taxista.

E o baiano do interior virou taxista em São Paulo. Aí, piorou. Ele conta que alguns passageiros ficavam indignados quando ele não sabia a localização de determinada rua. E quando descobriam de onde ele era, saíam-se com esta: "Também... Deixam baiano trabalhar na praça!".

De orgulho ferido, o baiano João meteu o mapa da metrópole na cabeça: decorou 200 páginas do Guia da Grande São Paulo. Não há um único paulistano capaz de saber mais do que ele.

"A página 26 está já lá no fim, fazendo divisa com Itaquaquecetuba. É mais conhecida como Avenida Água Chata", afirma João.

Ao enfrentar a humilhação, João estava, sem saber, ajudando o cérebro dele a funcionar melhor. A memória fantástica apareceu quando ele rejeitou uma atitude derrotista.

"O sofrimento envelhece o cérebro, bloqueia a produção de novas células nervosas que iriam substituir células perdidas e acelera a perda de células nervosas em regiões específicas do cérebro", revela o neurologista Cícero Galli Coimbra, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

A ciência sempre acreditou – e todos nós sempre aprendemos na escola – que as células do cérebro, ao contrário das outras células do nosso corpo, nunca se regeneram. Quando um neurônio morre, jamais nasce outro no lugar dele. Mas, de dez anos para cá, essa certeza científica foi dando lugar a evidências cada vez maiores de que as células nervosas podem, sim, construir novas pontes tapando os buracos provocados pelos neurônios mortos e religando a comunicação que estava interrompida. 
 
Isso é feito pelas chamadas células precursoras, que podem viajar de uma região a outra do cérebro e substituir os neurônios mortos. Quando elas fazem isso, acontece a neurogênese, o nascimento de novos neurônios.

Tomar sol bem cedo ou no fim da tarde ajuda a pele produzir a vitamina D, fundamental para a neurogênese. Mas não é só. "É absolutamente importante a pessoa manter ao longo da vida inteira a alegria de viver, o entusiasmo pelo que faz, procurar enfrentar os problemas do dia-a-dia com serenidade", aconselha doutor Galli. 
 
Outro aliado da produção de novos neurônios é um ex-vilão inteiramente regenerado pela medicina: o ovo, com a clara bem durinha e a gema mole.

"Isso pode parecer contrário ao conceito tradicional, mas está absolutamente de acordo com os dados mais recentes que têm sido demonstrados na literatura médica. O ovo possui elementos, entre eles eu destaco o colesterol de alto peso molecular, o chamado colesterol bom, e a colina, que são nutrientes essenciais para a produção de novas células", ressalta doutor Galli.

Botar o ovo no cardápio e apanhar um pouco de sol todo dia é barato e fácil. Mas e a outra pré-condição para favorecer o nascimento de neurônios: como lidar com o estresse? 
 
João garante que não é estressado com trânsito. "O engarrafamento não tem jeito. Fazer o quê? Relaxar. Aí, o passageiro fica nervoso porque acha que eu não conheço o melhor caminho. Quando São Paulo pára, não temos por onde sair", conforma-se o taxista.

Manter a calma num trânsito infernal é uma façanha que traz suas recompensas. Uma pesquisa da Rede Sarah mostra que o estresse exagerado afeta a memória.
"De repente, começaram a aparecer muitas pessoas, principalmente na faixa etária dos 45 aos 60 anos, dizendo que estavam ficando velhas porque estavam perdendo a memória", conta a neurocientista Lucia Willadino Braga.

A pesquisa comparou o cérebro de dois grupos de pessoas. O primeiro tinha entre 45 e 60 anos. O segundo, como Lucídio, mais de 80 anos de idade. A pedido do Globo Repórter, Lucídio refez os testes da pesquisa.

Logo no primeiro teste, Lucídio mostrou a memória impecável. Para fazer o teste de memória visual em que ele tinha de lembrar de uma série de figuras, Lucídio entrou numa máquina de ressonância magnética. Enquanto isso, os pesquisadores monitoravam sua atividade cerebral.

Enquanto ele lembrava das figuras, os equipamentos identificavam que região do cérebro ele estava usando. Lucídio confirmou os resultados anteriores: na memória de curto prazo, o acerto foi de 96%, bem maior do que o das pessoas mais jovens que participaram da pesquisa.

"Depois nós fizemos o teste da memória visual, que são as figuras abstratas. Eu perguntei qual delas você tinha visto antes e, incrivelmente, você acertou 100%. Então, você está com o cérebro muito jovem, muito exercitado, o que mostra que durante a sua vida toda você manteve o cérebro funcionando", anunciou Lucia.

O exame revelou também a estratégia usada por Lucídio para se lembrar das figuras. Ele ativou uma parte do cérebro acima dos olhos, perto da testa, uma área relacionada com o planejamento.

Culto e sofisticado, Lucídio foi buscar na obra de um pintor do século 16 uma maneira de fixar na memória, por associação, uma das figuras do teste. "Uma delas eu associei àquelas imagens fantásticas de El Greco", contou o urbanista.

A pesquisa do Hospital Sarah de Brasília concluiu que o grupo mais jovem estava tendo falhas na memória por causa do estresse e que o grupo mais velho manteve a memória intacta porque nunca deixou de exercitar o cérebro.

"A gente viu que nesse grupo entre 45 e 60 anos, as pessoas estavam estressadas. Elas estavam tomando remédio para dormir, fazendo mil coisas ao mesmo tempo. Então, elas não tinham um problema de memória e sim um problema de estruturação da vida", esclarece a neurocientista.

"Eu sei que me dediquei bastante até hoje. A partir do dia em que o homem achar que sabe tudo, ele estará perdido", diz João.

"Trabalhar é importante. Levantar cedo também. Passarinho madrugador é que come minhoca. Na roça, achamos que era importante sair com o nascer do sol", finaliza Lucídio.